O QUE VOCÊ QUER SER AGORA QUE CRESCEU?



Ao longo da infância, uma das perguntas que mais ouvimos é: “O que você quer ser quando crescer?”. Crescidos, afinal, a pergunta muda um pouco, mas não deixa de ser feita – agora, internamente, por nós mesmos. O tempo todo, criamos expectativas de como vamos ser, agir e até sentir diante das mais diversas situações – seja um almoço familiar, uma entrevista de emprego ou um processo de desenvolvimento espiritual. Numa ilusão de controle, ignorando o imprevisível dos acontecimentos e das reações que as pessoas podem despertar em nós, fantasiamos com riqueza de detalhes a posição exata que vamos assumir em cada circunstância.


O que acontece quando colocamos no mundo essa série de pequenos “eus idealizados” que criamos em nosso dia a dia é a receita exata da frustração. A partir do momento que preciso corresponder com perfeição às expectativas de quem serei e de como serei vista, meu nível de exigência comigo mesma sobe e um certo estado de alerta é criado para corresponder a essa fantasia. Entro, então, num processo de cegueira, fixando-me naquilo que desenhei no meu imaginário, e passo também a projetar minhas expectativas naqueles que estão ao meu redor. Se a imagem que idealizei não é correspondida, penso logo que todos estão percebendo a falha. Sinto-me vulnerável. E a decepção é grande.

Ou seja, quanto mais nos colocamos num lugar de exigir determinados comportamentos de nós mesmos e do outro, mais distantes do nosso “verdadeiro eu” nos colocamos – e maiores são as chances de fracassarmos. Deixamos, assim, de viver as situações com seu máximo potencial. Eu mesma consigo me recordar das várias vezes em que recebi pessoas em casa e, tão ocupada fiquei com a forma de receber que criei na minha cabeça, que mal pude aproveitar a experiência bem diante de mim.


Desconectados do presente e das pessoas com as quais compartilhamos os momentos, perdemo-nos da nossa verdade.


A exigência que impomos sobre nós, nesse tipo de dinâmica idealizada, geralmente anda de mãos dadas com uma certa culpa que atribuímos ao outro. Na projeção das expectativas que criamos e tentamos corresponder, passamos a achar que são os outros que estão nos exigindo, observando e julgando. E, ao tentar nos livramos do incômodo julgamento alheio, aumentamos o controle sobre os personagens que criamos para nós – até o ponto que fica impossível sustentá-los.


Criar expectativas é normal – talvez uma tendência impossível de evitar por completo. Mas querer submeter a realidade a elas é perder o melhor da festa.

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